Concreto Protendido: Como economizar aliando os benefícios da tecnologia à filosofia Lean de gestão

 A filosofia Lean Construction, ou Construção Enxuta, propõe, que enxuguemos os processos de produção na construção. As atividades que compõe os processos são então separadas em dois grupos: as que agregam valor e as que não agregam valor. A missão é eliminar ou reduzir ao máximo as atividades que não agregam valor como, por exemplo, movimentação de materiais, formação de estoques e, embora nos doa admitir, atividades de fiscalização de obra. Em suma são todas as atividades que não envolvem a transformação direta da matéria prima (tijolo, argamassa, tinta) no produto vendido (apartamento).

A ideia não é classificar a importância das atividades, mas o quanto elas afetam o valor do produto. É óbvio que a atividade do engenheiro que fiscaliza se a produção da estrutura está de acordo com o projeto e com as normas é da máxima importância, mas o valor de determinada construção não aumenta ou diminui caso ele leve 10 minutos ou 2 dias para fazer essa fiscalização – mantendo a mesma qualidade de fiscalização, obviamente. O valor da construção não varia caso a laje seja montada em 10 ou 20 dias, o que muda é o lucro da operação.

Geralmente os cálculos de viabilidade financeira de um empreendimento são realizados como [Lucro] = [Preço de Mercado] – [Custos com a Construção]. O foco do sistema Lean está nos custos com a construção, que estão diretamente ligados às atividades que não agregam valor. Portanto, se uma atividade que não agrega valor poderia ser feita em 10 minutos e está sendo feita em 1 hora, esses 50 minutos de diferença são considerados desperdício. A filosofia Lean destaca 8 grandes desperdícios, sendo eles: tempo de espera, transporte, superprodução, superprocessamento, estoque, movimentação, defeitos e má utilização do capital humano.

Para aplicarmos esse conceito na execução de uma estrutura, precisamos identificar os desperdícios de produção e planejar os processos de montagem da forma mais enxuta possível. Esse planejamento somente será efetivo se envolvermos a elaboração o projeto estrutural na esteira de processos. E é aí que entra uma tecnologia estrutural muito conhecida de alguns, pouco conhecida de muitos: a protensão. A tecnologia de protensão, dentre outras vantagens, nos permite controlar melhor o comportamento do concreto, inclusive reduzindo suas fraquezas e aumentando sua eficiência, geralmente aumentando sua rigidez. Isso nos possibilita trabalhar com estruturas planas, sem a necessidade de vigas, com redução significativa na quantidade de pilares e melhor padronização das seções desses elementos, além de armadura passiva padrão para toda a laje, atingindo um alto nível de padronização dos processos, eliminando uma série de desperdícios e agregando valor com muito menos custo.

Vamos a um exercício mental prático: uma laje é composta basicamente de concreto e aço, entretanto o que é vendido para o usuário (o que tem valor) é a laje e não seus insumos. No processo de produção da laje no sistema convencional precisamos montar os pilares que receberão as vigas e as vigas que apoiarão as lajes e posteriormente as lajes. No caso de uma laje protendida temos uma redução na quantidade de pilares e a geralmente a eliminação de todas as vigas, o que proporciona uma redução direta na quantidade de trabalho. Mas o maior ganho está na otimização dos processos de construção da estrutura.

Estrutura Convencional 

A eliminação de uma viga elimina as seguintes atividades que não agregam valor: estoque de madeira, estoque de aço, corte dos painéis de madeira de fundo e laterais da viga na bancada, corte das gravatas da viga na bancada, transporte dos painéis e das gravatas até o local da viga, escoramento em nível diferente da laje, montagem das gravatas (muita pregação), corte das armaduras da viga na bancada, transporte das armaduras das vigas até o local, fiscalização das fôrmas, fiscalização das armaduras, desfôrma das laterais, desescoramento, desforma dos fundos, transporte das formas para o próximo pavimento ou descarte. Total de 17 atividades. As atividades que agregam valor são: montagem das fôrmas, montagem das armaduras. Todas essas atividades são necessárias para a produção de 0,19m² de laje por metro de viga, logo a quantidade de homem x hora por metro quadrado é elevada. Além disso cada laje tem diferentes tipos de armação devido à diversidade de vãos criados pelas vigas, reduzindo a produtividade na montagem das lajes.

Estrutura Protendida

No caso da laje protendida, temos as seguintes atividades que não agregam valor: estoque de cordoalhas, corte das cordoalhas, posicionamento das ancoragens passivas, transporte das cordoalhas até o local, fiscalização da montagem, protensão, corte das pontas dos cabos, fechamento dos nichos, descarte dos cabos cortados. Total de 9 atividades, representando uma redução de 47% em relação à solução convencional, sendo que as atividades adicionadas pela protensão exigem muito menos homens hora para serem produzidas. As atividades que agregam valor são: montagem da protensão. Além disso a laje possui armadura padrão com quantidade bem inferior à laje convencional, escoramento padrão e fôrma padrão aumentando significativamente sua produtividade.

Na prática, o ganho final de produtividade ultrapassa os 40% quando comparamos a solução protendida com a solução convencional.

Sendo assim, a tecnologia de protensão não só reduz a quantidade de trabalho, mas também otimiza os processos de produção, elevando consideravelmente a produtividade e favorecendo um ambiente enxuto.

 

Guilherme Laini

Engenheiro Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

CEO – OPTIMA Estrutural